TEACCH
Organização física do ambiente, rotinas previsíveis e apoio visual. É a espinha dorsal das salas e da grade curricular, pensada para reduzir a ansiedade e tornar o aprendizado possível.
Dossiê institucional · São Paulo · 2026
A AMA nasceu em agosto de 1983, quando o autismo era quase desconhecido no Brasil. Hoje atende centenas de crianças, jovens e adultos — de graça — com um método próprio. Sustentar esse trabalho é o próximo capítulo.
Associação de Amigos do Autista
01 · Origem
Quando o autismo ainda não tinha diagnóstico difundido nem política pública no Brasil, um grupo de famílias decidiu construir uma instituição de papel amplo: atender, formar profissionais, produzir conhecimento e disputar a agenda pública.
Fundada em 8 de agosto de 1983, a AMA nasceu de um grupo de pais — em sua maioria, mães — de crianças autistas. Na época, faltava informação, faltava diagnóstico e não havia uma rede de atenção ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). O grupo não quis criar um “consórcio” para resolver apenas o problema dos próprios filhos: queria uma entidade com papel social e de pesquisa, capaz de ajudar famílias de toda a cidade, do estado e do país.
Entre os nomes do grupo fundador estão Ana Maria Serrajordia Ros de Mello, engenheira naval e hoje superintendente da instituição, e Marisa Fúria. O primeiro atendimento educacional veio em maio de 1984, no quintal de uma igreja batista. Em novembro do mesmo ano, a AMA realizou o I Encontro de Amigos do Autista, no Instituto Metodista de Ensino Superior, reunindo médicos, instituições e convidados internacionais como o espanhol Angel Rivière e Isabel Bayonas, da APNA de Madri.
A ousadia do começo explica o que a AMA se tornou: uma instituição que formou gerações de profissionais, inspirou outras associações e ajudou a colocar o autismo na pauta do Estado. A missão declarada segue a mesma: proporcionar à pessoa com autismo uma vida digna, com trabalho, saúde, lazer e integração à sociedade.
Hoje a AMA se define como uma entidade de assistência social sem fins lucrativos, que atua de forma articulada nas áreas de educação, saúde e assistência social — sempre sem cobrar das famílias atendidas.
“Proporcionar à pessoa com autismo uma vida digna: trabalho, saúde, lazer e integração à sociedade.” Missão da AMA
02 · Linha do tempo
De um quintal de igreja a congressos internacionais, de uma associação de pais a uma instituição com quatro unidades. Estes são os marcos que a própria AMA destaca.
Em 8 de agosto, um grupo de pais funda a associação em São Paulo. É considerada a primeira associação de autismo do Brasil e a mais antiga instituição de atendimento a pessoas autistas da América Latina.
Em maio, começa o atendimento educacional no quintal de uma igreja batista. Em novembro, o I Encontro de Amigos do Autista reúne médicos, instituições e especialistas internacionais no Instituto Metodista de Ensino Superior.
Com apoio da LBA, o grupo visita 18 instituições em 16 dias na Europa, além de centros nos Estados Unidos. A pesquisa, registrada no “Projeto Esperança”, leva ao encontro do método TEACCH e à decisão de investir em uma linha metodológica especializada.
A AMA realiza o V Congresso Mundial de Autismo, com mais de 1.500 participantes e nomes como Eric Schopler, Margaret Lansing, Bernard Rimland, René Diatkine e Angel Rivière. No mesmo ano, recebe o título federal de utilidade pública.
Reconhecimento da Kanitz & Associados pela eficiência da gestão. A instituição voltaria a receber o prêmio em 2005.
A AMA recebe o Prêmio Direitos Humanos, da UNESCO e do governo federal, entregue pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Começa a formação intensiva em Análise Aplicada do Comportamento (ABA), com Paula Braga Kenyon, Daniela Fazzio e Shawn Kenyon. No mesmo ano, tem início o convênio técnico e financeiro com o governo sueco, que dura até 2009 e ajuda a criar o Centro de Conhecimento da AMA.
O Centro de Conhecimento sistematiza TEACCH, ABA e contribuições do método Montessori no Sistema Educacional e Terapêutico da AMA, com seis níveis, grade curricular própria e acompanhamento diário.
A campanha “The Autism Journey”, criada pela Africa para a Vivo com apoio da AMA-SP, é premiada na categoria Health & Wellness do Festival de Cannes. A ação também impulsiona o site gratuito ajornadadoautismo.com.br.
A AMA recebe o SENIA International Outreach Scholarship, atende 532 pessoas e realiza o XXI Encontro de Amigos pelo Autismo, com mais de 534 participantes.
O XXII Encontro debate inclusão e acolhimento. Em outubro, uma nova diretoria é eleita com 82 familiares votantes. A instituição firma parceria com a UNISA e reforça o alerta sobre o futuro da Nota Fiscal Paulista.
A AMA segue com quatro unidades na capital, uma Residência Inclusiva e atendimento em parceria no CAISM Philippe Pinel — sustentando a gratuidade como regra.
03 · Método
O SETA combina três tradições em uma grade própria: a organização visual do TEACCH, o ensino individualizado e baseado em dados do ABA e os fundamentos do Montessori. O resultado é um percurso de seis níveis, com metas semestrais e acompanhamento diário.
Organização física do ambiente, rotinas previsíveis e apoio visual. É a espinha dorsal das salas e da grade curricular, pensada para reduzir a ansiedade e tornar o aprendizado possível.
Análise Aplicada do Comportamento: objetivos individualizados, “aprendizado sem erro”, coleta sistemática de dados e protocolos específicos para comportamentos de risco.
A partir do Nível 2, fundamentos montessorianos entram como apoio à alfabetização, à escrita e à matemática, respeitando o ritmo e a autonomia de cada assistido.
Plano Educacional e Terapêutico Individualizado, com objetivos de aquisição e um objetivo de redução — um comportamento de risco a ser trabalhado no semestre.
Protocolo de Tratamento de Problemas de Comportamento, com linha de base de três dias, análise da função do comportamento e medidas de segurança.
Painéis atualizados várias vezes ao dia registram o que foi trabalhado e o resultado obtido, permitindo comparar a evolução com a meta do semestre.
04 · Onde atende
A estrutura se concentra no Cambuci e em Parelheiros, com perfis de atendimento diferentes por idade, nível de suporte e necessidade de cuidado. As capacidades abaixo são as declaradas no Relatório de Atividades 2024.
Crianças de até 12 anos com autismo moderado e severo e problemas de comportamento.
Rua do Lavapés, 1123 · CambuciJovens e adultos com autismo moderado e leve. Incorpora ao trabalho pedagógico atividades profissionalizantes.
Rua Luís Gama, 890 · CambuciJovens com autismo moderado e severo e problemas de comportamento.
Rua Teodureto Souto, 145 · CambuciCrianças, jovens e adultos em todo o espectro. São 8 salas de atendimento com escolaridade, sendo 2 núcleos de apoio à inclusão social.
Rua Henrique Reimberg, 1015 · ParelheirosJovens e adultos com vínculos familiares rompidos ou fragilizados. Treze quartos coletivos, oito individuais e espaços de convivência, com foco em autonomia e vida comunitária.
São PauloAtendimento em prédio parceiro, com equipe multidisciplinar, ampliando a capacidade diária da instituição.
São PauloCapacidades declaradas no Relatório de Atividades 2024. Elas podem variar conforme o perfil dos assistidos e a disponibilidade de vaga em cada período.
05 · Números
Os números abaixo vêm do Relatório de Atividades 2024 e do material institucional de 2025. Eles dão a dimensão do atendimento — e também do esforço de captação necessário para mantê-lo.
O XXI Encontro de Amigos pelo Autismo, em 2024, foi realizado no teatro cedido pela UNIP, com tradução em português, inglês e espanhol e equipe majoritariamente voluntária. Em agosto de 2025, a 22ª edição reuniu associações, clínicas e pessoas autistas para discutir inclusão e acolhimento.
06 · O desafio
A gratuidade é a regra da AMA — e também o seu principal ponto de vulnerabilidade. O modelo depende de repasses públicos, doações e de um programa de incentivo fiscal que pode encolher.
A instituição mantém o atendimento com dois convênios estaduais (Saúde e Educação), doações de pessoas físicas e jurídicas e a Nota Fiscal Paulista. Segundo a própria AMA, os convênios estão sem reajuste há anos, e quase 90% da despesa é folha de pagamento.
“Uma nota de R$ 1,00 pode reverter até R$ 260,00 de doação para a AMA.”
O risco regulatório é concreto. A reforma tributária extingue o ICMS, e a fatia do imposto destinada ao programa da Nota Fiscal Paulista pode cair de 0,5% para 0,05% da arrecadação estadual — uma redução de dez vezes. Até maio de 2025, a AMA havia captado R$ 243 mil via NFP. Na carta de despedida da gestão anterior, o então presidente Carlos Alberto von Poser também citou projetos não realizados, como a nova unidade da Vila Ré e a mudança do Setor Teodureto para um espaço mais digno, e pediu mobilização do terceiro setor para preservar os mecanismos de incentivo.
07 · Reconhecimento
A AMA acumula títulos de utilidade pública, prêmios de gestão e direitos humanos, reconhecimento internacional e uma rede de parceiros que atravessa governos e empresas.
Decretos municipais e estaduais reconhecem o papel público da associação.
Reconhecimento publicado no Diário Oficial da União.
Da Kanitz & Associados, pela eficiência na gestão. Repetido em 2005.
Da UNESCO e do governo federal, entregue pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Campanha “The Autism Journey”, da Vivo com a agência Africa, na categoria Health & Wellness.
Prêmio internacional voltado a projetos de inclusão, com o projeto do Encontro de Amigos do Autismo.
A AMA já teve convênio com o governo sueco (2000–2009), parceria de mais de dez anos com o New England Center for Children, nos Estados Unidos, e mantém convênios com as Secretarias estaduais de Saúde e Educação. Entre as empresas apoiadoras divulgadas no site estão Microsoft, Motorola, Mattos Filho, Santa Lolla, Grupo Método e Falcão Bauer. Em 2025, a instituição firmou parceria com a UNISA. O Encontro de Amigos pelo Autismo, realizado há 22 edições, é o principal evento científico próprio da casa.
08 · Como ajudar
A AMA não recebe matrícula direta e não mantém fila de espera. Para o atendimento, o acesso passa pelas Secretarias estaduais. Para sustentar o trabalho, há várias formas de contribuir.
Chave: doacoes@ama.org.br. Sem cadastro, sem intermediário.
Cadastre seu CPF e destine suas notas à AMA. A média atual é de R$ 50 mil por mês; a meta é R$ 200 mil.
Como se cadastrar → RecorrênciaValores a partir de R$ 20, com opção de doação recorrente. O site aceita cartão e outros meios.
Escolher valor → EmpresasPatrocínio, parcerias de serviços e apoio a projetos. A rede reúne empresas de diferentes setores.
Conhecer o programa → Tempo e presençaAgende uma visita para conhecer as unidades e conversar sobre formas de colaborar.
Agendar visita → De fora do BrasilEstrangeiros e brasileiros no exterior podem doar por meio da página internacional.
Doar do exterior →O atendimento é 100% gratuito, mas o encaminhamento é feito pelo Estado. A AMA não trabalha com fila de espera: se não houver vaga compatível, a Secretaria deve orientar outro serviço.
É necessário encaminhamento da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo.
O encaminhamento precisa vir das Secretarias de Saúde e de Educação.
A AMA avalia o perfil com o PEP-R e verifica a existência de vaga compatível com idade e nível de suporte.
Documentos e passo a passo completo estão em ama.org.br/ama/como-ser-atendido-pela-ama. Dúvidas podem ser enviadas para falecomaama@ama.org.br.
09 · Para ler com atenção
Reconhecer a importância da AMA não exige tratar sua história como intocável. Estes são os limites e tensões que aparecem quando se olha para dentro do modelo.
A gratuidade é sustentada por convênios públicos e filantropia. Com quase 90% da despesa em folha e convênios sem reajuste, qualquer atraso ou corte tem efeito direto no atendimento. A AMA tornou esse debate público — o que é um sinal de transparência, mas também de fragilidade estrutural.
Não basta procurar a AMA: é preciso ser encaminhado pelas Secretarias estaduais e haver vaga compatível. A instituição não mantém fila de espera. Isso evita o acúmulo de famílias sem resposta, mas também significa que quem não é encaminhado ou não encontra vaga fica fora do serviço.
O sistema combina abordagens com evidência científica, mas a AMA não publica, no material consultado, um estudo de resultados do próprio método. Em 2023, reportagem do Canal Autismo registrava que ainda não havia pesquisas sobre o SETA. Isso não invalida o trabalho — apenas limita a comparação independente de resultados.
As duas abordagens são amplamente utilizadas, mas estão no centro de um debate internacional sobre intensidade, objetivos e participação das pessoas autistas nas decisões que lhes dizem respeito. A AMA afirma que o método é individualizado e que os pais acompanham o PETI. O debate público, porém, segue aberto — e é saudável que siga.
10 · Fontes
Todas as informações foram checadas em fontes públicas em 31 de outubro de 2026. O dossiê não é uma publicação oficial da AMA.