Dossiê institucional · São Paulo · 2026

Quatro décadas abrindo caminhos para o autismo.

A AMA nasceu em agosto de 1983, quando o autismo era quase desconhecido no Brasil. Hoje atende centenas de crianças, jovens e adultos — de graça — com um método próprio. Sustentar esse trabalho é o próximo capítulo.

Começar pela história Leitura de 10 min · 13 fontes públicas
desde 1983 43 anos

Associação de Amigos do Autista

1983Ano de fundação
532Pessoas atendidas em 2024
280Colaboradores e estagiários (aprox.)
100%Atendimento gratuito
4Unidades na capital

Em 30 segundosO essencial do dossiê

  • O que éONG fundada em 1983 por pais de pessoas autistas, em São Paulo. É considerada a primeira associação de autismo do Brasil.
  • O que fazAtendimento educacional e terapêutico 100% gratuito, com o método próprio SETA, em quatro unidades e uma residência inclusiva.
  • Quem atendeCerca de 300 pessoas atendidas atualmente; 532 ao longo de 2024, de crianças a adultos, em todos os níveis de suporte.
  • Como se financiaConvênios com as Secretarias estaduais de Saúde e Educação, doações de pessoas físicas e jurídicas e Nota Fiscal Paulista.
  • O que preocupaDéficit operacional, convênios sem reajuste há anos e o risco de queda de até dez vezes nos repasses da Nota Fiscal Paulista com a reforma tributária.

01 · Origem

Uma associação feita por pais — e para muito além dos próprios filhos.

Quando o autismo ainda não tinha diagnóstico difundido nem política pública no Brasil, um grupo de famílias decidiu construir uma instituição de papel amplo: atender, formar profissionais, produzir conhecimento e disputar a agenda pública.

Fundada em 8 de agosto de 1983, a AMA nasceu de um grupo de pais — em sua maioria, mães — de crianças autistas. Na época, faltava informação, faltava diagnóstico e não havia uma rede de atenção ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). O grupo não quis criar um “consórcio” para resolver apenas o problema dos próprios filhos: queria uma entidade com papel social e de pesquisa, capaz de ajudar famílias de toda a cidade, do estado e do país.

Entre os nomes do grupo fundador estão Ana Maria Serrajordia Ros de Mello, engenheira naval e hoje superintendente da instituição, e Marisa Fúria. O primeiro atendimento educacional veio em maio de 1984, no quintal de uma igreja batista. Em novembro do mesmo ano, a AMA realizou o I Encontro de Amigos do Autista, no Instituto Metodista de Ensino Superior, reunindo médicos, instituições e convidados internacionais como o espanhol Angel Rivière e Isabel Bayonas, da APNA de Madri.

A ousadia do começo explica o que a AMA se tornou: uma instituição que formou gerações de profissionais, inspirou outras associações e ajudou a colocar o autismo na pauta do Estado. A missão declarada segue a mesma: proporcionar à pessoa com autismo uma vida digna, com trabalho, saúde, lazer e integração à sociedade.

Hoje a AMA se define como uma entidade de assistência social sem fins lucrativos, que atua de forma articulada nas áreas de educação, saúde e assistência social — sempre sem cobrar das famílias atendidas.

“Proporcionar à pessoa com autismo uma vida digna: trabalho, saúde, lazer e integração à sociedade.” Missão da AMA
SolidariedadeÉticaRespeito ComunicaçãoTransparênciaResponsabilidade Competência técnica

02 · Linha do tempo

Uma trajetória que se confunde com a história do autismo no Brasil.

De um quintal de igreja a congressos internacionais, de uma associação de pais a uma instituição com quatro unidades. Estes são os marcos que a própria AMA destaca.

  1. 1983

    Nasce a AMA

    Em 8 de agosto, um grupo de pais funda a associação em São Paulo. É considerada a primeira associação de autismo do Brasil e a mais antiga instituição de atendimento a pessoas autistas da América Latina.

  2. 1984

    Primeiro atendimento e primeiro encontro

    Em maio, começa o atendimento educacional no quintal de uma igreja batista. Em novembro, o I Encontro de Amigos do Autista reúne médicos, instituições e especialistas internacionais no Instituto Metodista de Ensino Superior.

  3. 1988

    A viagem que mudou o método

    Com apoio da LBA, o grupo visita 18 instituições em 16 dias na Europa, além de centros nos Estados Unidos. A pesquisa, registrada no “Projeto Esperança”, leva ao encontro do método TEACCH e à decisão de investir em uma linha metodológica especializada.

  4. 1991

    O mundo do autismo no Brasil

    A AMA realiza o V Congresso Mundial de Autismo, com mais de 1.500 participantes e nomes como Eric Schopler, Margaret Lansing, Bernard Rimland, René Diatkine e Angel Rivière. No mesmo ano, recebe o título federal de utilidade pública.

  5. 1997

    Prêmio Bem Eficiente

    Reconhecimento da Kanitz & Associados pela eficiência da gestão. A instituição voltaria a receber o prêmio em 2005.

  6. 1998

    Prêmio Direitos Humanos

    A AMA recebe o Prêmio Direitos Humanos, da UNESCO e do governo federal, entregue pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.

  7. 2000

    ABA e cooperação sueca

    Começa a formação intensiva em Análise Aplicada do Comportamento (ABA), com Paula Braga Kenyon, Daniela Fazzio e Shawn Kenyon. No mesmo ano, tem início o convênio técnico e financeiro com o governo sueco, que dura até 2009 e ajuda a criar o Centro de Conhecimento da AMA.

  8. 2015

    Nasce o SETA

    O Centro de Conhecimento sistematiza TEACCH, ABA e contribuições do método Montessori no Sistema Educacional e Terapêutico da AMA, com seis níveis, grade curricular própria e acompanhamento diário.

  9. 2023

    Leão de Bronze em Cannes

    A campanha “The Autism Journey”, criada pela Africa para a Vivo com apoio da AMA-SP, é premiada na categoria Health & Wellness do Festival de Cannes. A ação também impulsiona o site gratuito ajornadadoautismo.com.br.

  10. 2024

    Reconhecimento internacional e 532 atendidos

    A AMA recebe o SENIA International Outreach Scholarship, atende 532 pessoas e realiza o XXI Encontro de Amigos pelo Autismo, com mais de 534 participantes.

  11. 2025

    42 anos e nova diretoria

    O XXII Encontro debate inclusão e acolhimento. Em outubro, uma nova diretoria é eleita com 82 familiares votantes. A instituição firma parceria com a UNISA e reforça o alerta sobre o futuro da Nota Fiscal Paulista.

  12. 2026

    43 anos

    A AMA segue com quatro unidades na capital, uma Residência Inclusiva e atendimento em parceria no CAISM Philippe Pinel — sustentando a gratuidade como regra.

03 · Método

O sistema que a AMA construiu para si — e para o país.

O SETA combina três tradições em uma grade própria: a organização visual do TEACCH, o ensino individualizado e baseado em dados do ABA e os fundamentos do Montessori. O resultado é um percurso de seis níveis, com metas semestrais e acompanhamento diário.

Base 01 · estrutura

TEACCH

Organização física do ambiente, rotinas previsíveis e apoio visual. É a espinha dorsal das salas e da grade curricular, pensada para reduzir a ansiedade e tornar o aprendizado possível.

Base 02 · ensino

ABA

Análise Aplicada do Comportamento: objetivos individualizados, “aprendizado sem erro”, coleta sistemática de dados e protocolos específicos para comportamentos de risco.

Base 03 · alfabetização

Montessori

A partir do Nível 2, fundamentos montessorianos entram como apoio à alfabetização, à escrita e à matemática, respeitando o ritmo e a autonomia de cada assistido.

TerapêuticoPRotina, permanência e controle postural
Terapêutico0Comunicação funcional e imitação
Terapêutico1Bases para aprender: comunicação, motricidade e pré-acadêmicos
Acadêmico2Leitura, escrita e matemática com apoio Montessori
Acadêmico3Introdução ao ensino fundamental
Acadêmico4Nível mais avançado da grade

PETI

Plano Educacional e Terapêutico Individualizado, com objetivos de aquisição e um objetivo de redução — um comportamento de risco a ser trabalhado no semestre.

PTPC

Protocolo de Tratamento de Problemas de Comportamento, com linha de base de três dias, análise da função do comportamento e medidas de segurança.

Acompanhamento

Painéis atualizados várias vezes ao dia registram o que foi trabalhado e o resultado obtido, permitindo comparar a evolução com a meta do semestre.

04 · Onde atende

Quatro unidades, uma residência e uma parceria hospitalar.

A estrutura se concentra no Cambuci e em Parelheiros, com perfis de atendimento diferentes por idade, nível de suporte e necessidade de cuidado. As capacidades abaixo são as declaradas no Relatório de Atividades 2024.

Setor Lavapés

Crianças de até 12 anos com autismo moderado e severo e problemas de comportamento.

Rua do Lavapés, 1123 · Cambuci
44pessoas/dia

Setor Luís Gama

Jovens e adultos com autismo moderado e leve. Incorpora ao trabalho pedagógico atividades profissionalizantes.

Rua Luís Gama, 890 · Cambuci
74pessoas/dia

Setor Teodureto

Jovens com autismo moderado e severo e problemas de comportamento.

Rua Teodureto Souto, 145 · Cambuci
44pessoas/dia

Unidade Parelheiros

Crianças, jovens e adultos em todo o espectro. São 8 salas de atendimento com escolaridade, sendo 2 núcleos de apoio à inclusão social.

Rua Henrique Reimberg, 1015 · Parelheiros
120pessoas/dia

Residência Inclusiva

Jovens e adultos com vínculos familiares rompidos ou fragilizados. Treze quartos coletivos, oito individuais e espaços de convivência, com foco em autonomia e vida comunitária.

São Paulo
25moradores

Parceria CAISM Philippe Pinel

Atendimento em prédio parceiro, com equipe multidisciplinar, ampliando a capacidade diária da instituição.

São Paulo
240pessoas/dia

Capacidades declaradas no Relatório de Atividades 2024. Elas podem variar conforme o perfil dos assistidos e a disponibilidade de vaga em cada período.

05 · Números

O que os dados de 2024 mostram.

Os números abaixo vêm do Relatório de Atividades 2024 e do material institucional de 2025. Eles dão a dimensão do atendimento — e também do esforço de captação necessário para mantê-lo.

532Pessoas atendidas em 2024Atendimento direto e gratuito
559Atendimentos médicosPsiquiatria, ao longo do ano
534Participantes no XXI EncontroEvento científico de 2024
110Cestas básicas distribuídasCerca de 330 pessoas beneficiadas
25Moradores na Residência InclusivaMédia de 20 atendimentos por período
22Edições do Encontro de AmigosAté 2025, entre presenciais e remotos

O XXI Encontro de Amigos pelo Autismo, em 2024, foi realizado no teatro cedido pela UNIP, com tradução em português, inglês e espanhol e equipe majoritariamente voluntária. Em agosto de 2025, a 22ª edição reuniu associações, clínicas e pessoas autistas para discutir inclusão e acolhimento.

06 · O desafio

O atendimento é gratuito. A conta não é.

A gratuidade é a regra da AMA — e também o seu principal ponto de vulnerabilidade. O modelo depende de repasses públicos, doações e de um programa de incentivo fiscal que pode encolher.

A instituição mantém o atendimento com dois convênios estaduais (Saúde e Educação), doações de pessoas físicas e jurídicas e a Nota Fiscal Paulista. Segundo a própria AMA, os convênios estão sem reajuste há anos, e quase 90% da despesa é folha de pagamento.

R$ 1,2 miDespesa mensalEstimativa divulgada em novembro de 2025
90%Da despesa é folhaSalários e encargos da equipe
R$ 50 milMédia mensal via NFPNota Fiscal Paulista
650Doadores cadastrados na NFPBase atual do programa
R$ 200 milMeta mensal da NFPQuatro vezes o valor atual
2.000Doadores necessáriosPara sustentar a meta mensal
“Uma nota de R$ 1,00 pode reverter até R$ 260,00 de doação para a AMA.”
Rafael Olivares · gerente administrativo da AMA
Boletim Notícias dos Amigos nº 153, novembro de 2025

O risco regulatório é concreto. A reforma tributária extingue o ICMS, e a fatia do imposto destinada ao programa da Nota Fiscal Paulista pode cair de 0,5% para 0,05% da arrecadação estadual — uma redução de dez vezes. Até maio de 2025, a AMA havia captado R$ 243 mil via NFP. Na carta de despedida da gestão anterior, o então presidente Carlos Alberto von Poser também citou projetos não realizados, como a nova unidade da Vila Ré e a mudança do Setor Teodureto para um espaço mais digno, e pediu mobilização do terceiro setor para preservar os mecanismos de incentivo.

07 · Reconhecimento

Uma reputação construída em décadas — e cobrada todos os dias.

A AMA acumula títulos de utilidade pública, prêmios de gestão e direitos humanos, reconhecimento internacional e uma rede de parceiros que atravessa governos e empresas.

  • 1986

    Utilidade pública municipal e estadual

    Decretos municipais e estaduais reconhecem o papel público da associação.

  • 1991

    Utilidade pública federal

    Reconhecimento publicado no Diário Oficial da União.

  • 1997

    Prêmio Bem Eficiente

    Da Kanitz & Associados, pela eficiência na gestão. Repetido em 2005.

  • 1998

    Prêmio Direitos Humanos

    Da UNESCO e do governo federal, entregue pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

  • 2023

    Leão de Bronze em Cannes

    Campanha “The Autism Journey”, da Vivo com a agência Africa, na categoria Health & Wellness.

  • 2024

    SENIA International Outreach Scholarship

    Prêmio internacional voltado a projetos de inclusão, com o projeto do Encontro de Amigos do Autismo.

Rede de apoio

A AMA já teve convênio com o governo sueco (2000–2009), parceria de mais de dez anos com o New England Center for Children, nos Estados Unidos, e mantém convênios com as Secretarias estaduais de Saúde e Educação. Entre as empresas apoiadoras divulgadas no site estão Microsoft, Motorola, Mattos Filho, Santa Lolla, Grupo Método e Falcão Bauer. Em 2025, a instituição firmou parceria com a UNISA. O Encontro de Amigos pelo Autismo, realizado há 22 edições, é o principal evento científico próprio da casa.

08 · Como ajudar

Doar é simples. Chegar também tem caminho.

A AMA não recebe matrícula direta e não mantém fila de espera. Para o atendimento, o acesso passa pelas Secretarias estaduais. Para sustentar o trabalho, há várias formas de contribuir.

Para famílias: como chegar

O atendimento é 100% gratuito, mas o encaminhamento é feito pelo Estado. A AMA não trabalha com fila de espera: se não houver vaga compatível, a Secretaria deve orientar outro serviço.

  1. Até 6 anos

    É necessário encaminhamento da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo.

  2. Acima de 6 anos

    O encaminhamento precisa vir das Secretarias de Saúde e de Educação.

  3. Avaliação de perfil

    A AMA avalia o perfil com o PEP-R e verifica a existência de vaga compatível com idade e nível de suporte.

Documentos e passo a passo completo estão em ama.org.br/ama/como-ser-atendido-pela-ama. Dúvidas podem ser enviadas para falecomaama@ama.org.br.

09 · Para ler com atenção

Quatro pontos que um dossiê não deveria esconder.

Reconhecer a importância da AMA não exige tratar sua história como intocável. Estes são os limites e tensões que aparecem quando se olha para dentro do modelo.

A dependência de repasses e doações

A gratuidade é sustentada por convênios públicos e filantropia. Com quase 90% da despesa em folha e convênios sem reajuste, qualquer atraso ou corte tem efeito direto no atendimento. A AMA tornou esse debate público — o que é um sinal de transparência, mas também de fragilidade estrutural.

O acesso não é direto

Não basta procurar a AMA: é preciso ser encaminhado pelas Secretarias estaduais e haver vaga compatível. A instituição não mantém fila de espera. Isso evita o acúmulo de famílias sem resposta, mas também significa que quem não é encaminhado ou não encontra vaga fica fora do serviço.

O SETA ainda não tem avaliação pública

O sistema combina abordagens com evidência científica, mas a AMA não publica, no material consultado, um estudo de resultados do próprio método. Em 2023, reportagem do Canal Autismo registrava que ainda não havia pesquisas sobre o SETA. Isso não invalida o trabalho — apenas limita a comparação independente de resultados.

O debate sobre ABA e TEACCH

As duas abordagens são amplamente utilizadas, mas estão no centro de um debate internacional sobre intensidade, objetivos e participação das pessoas autistas nas decisões que lhes dizem respeito. A AMA afirma que o método é individualizado e que os pais acompanham o PETI. O debate público, porém, segue aberto — e é saudável que siga.